A origem do Instituto Nova Era e a influência dos irmãos sertanistas Villas Bôas

 

Na década de 40, eles ajudaram a desbravar o interior do Brasil e lutaram para defender os direitos dos povos indígenas. O INE traz no DNA essa herança genética desse passado importante da história do Brasil.

 

O jornalista Orlando Cardoso de Oliveira é um dos integrantes do conselho Consultivo e considerado a velha guarda do Instituto Nova Era. Para ele, a trajetória do INE começa ainda durante a era Vargas, do presidente Getúlio Vargas.  O Instituto Raoni Vilas Boas foi criado em 2012, e a partir de 2018 se transformou em Instituto Nova Era, com a mudança da sede de Osasco para Ribeirão Preto. Apesar dessa história recente, o “Instituto traz em seu DNA uma herança genética que remete a um período relevante da história do Brasil”, diz Orlando.

Para entender mais sobre o passado histórico e das raízes do INE, é preciso voltar 80 anos atrás durante o governo Getúlio Vargas, que incentivou os brasileiros a se alistarem na “Marcha para o Oeste” (Filme: Xingu). Os irmãos sertanistas Villas Bôas, Cláudio, Orlando e Leonardo, embarcaram na Expedição Roncador-Xingu (1943-1949). Os três estavam em busca de aventura e acabaram tendo um papel relevante na defesa dos direitos dos povos indígenas.

Segundo Orlando, ex-tesoureiro do Instituto Raoni Vilas-Boas, todo esse passado histórico do Brasil influenciou na origem do Instituto Nova Era, que derivou do Instituto Raoni Vilas-Boas, da Associação Casa do Estudante Indígena Tradicionalmente Organizado (ACEITO) e do Instituto de Desenvolvimento das Tradições Indígenas (Ideti).

A seguir a entrevista com Orlando Cardoso:

Repórter – A história começa no final da Expedição Roncador-Xingu, quando os irmãos Villas-Bôas conseguem uma grande área de terra para os indígenas?

Orlando - Quando terminou a expedição eles criaram o Parque Nacional do Xingu em área homologada já no governo de Jânio Quadros. No governo de JK (Juscelino Kubitsheck) a expedição de Rondon teve continuidade para a marcha para o Oeste, com a construção de Brasília. Com a abertura das estradas, JK entendeu a necessidade do Parque já que etnias espalhadas pelo Brasil inteiro estavam sendo ameaçadas,  perdendo seu território e suas culturas, e as levassem para dentro do parque numa região onde teriam suas culturas e meios de vida preservados. Então aí começa a história, os irmãos Villas Bôas (Orlando, Claudio e Leonardo), percorreram diversas tribos espalhadas pelo Brasil, convencendo as lideranças e os grupos indígenas para se mudarem para o interior do parque. Eles levaram diversas etnias pra lá...

Nesse processo, pegavam crianças, jovens e adolescentes com espírito de liderança e traziam para estudar em São Paulo. O Orlando e Claudio as levavam para dentro da casa para dar ensino até o grau universitário, formavam essas pessoas e as mandavam de volta para a tribo. Voltavam para exercerem a liderança com um conhecimento mais apurado.

O Terena fez parte disso, o Raoni [cacique Raoni] fez parte disso. São da geração deles, dos irmãos Villas- Bôas. Mas têm vários outros líderes indígenas, o Ailton Krenak, por exemplo, é outra figura de destaque. É aquele indígena que se pintou de preto em 1982, na Assembleia Constituinte, para defender a demarcação das terras indígenas. Esse é o Ailton Krenak, cacique do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, uma das vozes e lideranças mais respeitadas atualmente.

Repórter – Como surgiu o IDETI?

Orlando - O Ailton Krenak criou o Instituto de Desenvolvimento das Tradições Indígenas (IDETI), que era uma continuidade dos trabalhos dos Irmãos Villas Bôas de capacitar lideranças para vivenciar o empático da civilização branca.  Então ele criou o IDETI. Casado com Angela Papianni, durante 20 anos ele deu continuidade ao trabalho dos irmãos Villas Bôas ao acolher as lideranças no estado de São Paulo e oferecer estudo universitário. O Ailton Krenak em função desse trabalho se aproximou de mim e do Glauco Vilas Boas, mais do Glauco, em função do filho dele Ipojucâ, que é neto de cacique. E aí o krenak se aproximou da gente por conta dessa história, aí ele se fardou, tomou Daime e falou com a gente. Eu me lembro da visita dele na sede no dia 19 de abril de 1994, tinha índio pintado de guerra, dois xavantes, o Krenak os levou pra lá. Partiu para um trabalho, se fardou e ficamos amigos. Depois o Raoni [filho do Glauco] já estava participando dos trabalhos e também se aproximou do Ailton e ouviu essas histórias que eu contava, que o meu pai contava. Neste ínterim, o Krenak fecha o IDETI por concluir que o trabalho já estava finalizado. Ele se separa da antropóloga italiana Angela Papianni, com quem mantinha uma relação conjugal, e vai atrás da tribo dele, os Krenak. Casa-se com uma índia Krenak e começa a vida dele como líder indígena Krenak, tardiamente, depois de ter passado 20 anos a frente do IDETI desenvolvendo as tradições indígenas no Brasil inteiro.

Repórter – Ele conseguiu unir várias etnias?

Orlando - Ele esteve com a maioria das etnias brasileiras. No Juruá, reuniu 12 povos do Vale que são ayhausqueiros; só essas etnias do Vale do Juruá que tinham contato com a bebida devido à proximidade com o Peru. Os kaxinawá desciam de lá. Você já ouviu falar dos sítios arqueológicos que estão descobrindo lá? Tem haver com essa história, eles desciam para fazer rituais aqui, ou seja, esses índios dessas etnias sempre usaram a bebida. Só em 1912 com a chegada do Exército brasileiro e dos salesianos, principalmente os salesianos, cortaram pela raiz o consumo da Ayhausca [bebida sagrada dos povos originários]. “Não pode mais plantar o cipó”, “não pode mais plantar folha”, arrancaram tudo e partiram para a catequização tardia dessas etnias. Mas, isso não durou muito, em pouco tempo, menos de um século, tudo tinha acabado. Aí o Krenak fez o trabalho com essas etnias para recuperar as tradições e o Daime ajudou muito. Essas lideranças foram tomar Daime e através da bebida sagrada voltaram às origens ayhausqueiras. Com memória ancestral inclusive, isso é muito bacana, recuperação da memória ancestral através do Daime pela ayhausca.

Repórter – Como ficaram as atividades com o fechamento do IDETI?

Orlando - O IDETI parou de existir, quando o IDETI parou de existir, isso no início do século XXI, início dos anos 2000, Leopardo, liderança formada por Ailton e Raoni, mais meu filho, Thor, criaram a Associação Casa do Estudante Indígena Tradicionalmente Organizado (ACEITO). A associação foi criada com um estatuto, uma ONG e foi registrada, chegou a ter sede, e eles iniciaram os trabalhos com foco na criação de uma casa que desse sustento a essas jovens lideranças, que viriam dessas tribos do Juruá principalmente, por causa da nossa ligação com o Daime, para se prepararem aqui em São Paulo. Quando acontece a tragédia - o Raoni foi assassinado junto com o seu pai Glauco em 2010 - o ACEITO acabou. Em 2012, o Ipojucã [outro filho do Glauco] e o Vinicius [presidente do Instituto Nova Era] pegaram o estatuto e tomaram a decisão de retomar o trabalho criando o Instituto Raoni Vilas Boas, que começa a existir a partir de expedições aos estados do Norte do Brasil, levaram abelhas e apicultura para a floresta. Foram lá pro Vale do Juruá, sem perder o foco em São Paulo, mais precisamente em Osasco, onde a prefeitura da cidade criou o parque Glauco Villas Boas, e submeteu sua administração ao IRVB.

Repórter - Como começou essa parceria?

Orlando – Começou através de uma relação estreita entre Instituto Raoni Vilas Boas e a prefeitura de Osasco. Além do atendimento aos indígenas, o instituto também atuou no trabalho de educação ambiental com as crianças, alunos de escolas municipais de Osasco, com atividades no parque. Alugamos uma casa ao lado do parque, onde tinha aula de judô, artes marciais, uma série de atividades na área ambiental, como recuperação de nascentes, plantio de sementes de árvores nativas da mata atlântica em áreas urbanas do município de Osasco, entre outras atividades.

Repórter – E como foram desenvolvidas as ações na floresta amazônica?

Orlando – O Vinicius [hoje presidente do INE] deu início a Cooperativa Agroextrativista do Mapiá e Médio Purus (Cooperar). Todo esse trabalho começou na época do Instituto Raoni Vilas-Boas. Em 2018 quando o Vinicius volta para Ribeirão Preto, sua terra natal, decide mudar a sede do instituto da capital para o interior paulista.

Repórter – As transformações são muito recentes...

Orlando - Dois anos atrás começaram com a transição para o Instituto Nova Era, com uma sede estruturada na rua Sete de Setembro, nº 777, e pelas ações do Vinicius que se envolveu de forma pessoal, com os projetos no Ceú do Mapiá e na região do Juruá. Em Osasco, o instituto faz parte até hoje do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente, a gente tem o diploma cedido pela Prefeitura.

Repórter – Como se deu o trâmite e a vinda do Instituto para Ribeirão Preto em 2018?

Orlando – Vem ainda como Instituto Raoni Vilas-Boas. Aqui, no entanto, muda de nome. Vinicius começou como tesoureiro do Instituto Raoni Vilas Boas. Contudo, por questões familiares, por não ter 21 anos ainda, ele saiu e eu assumi no lugar dele. Depois o Ipojucã deixou a presidência e o Vinicius finalmente assumiu o Instituto Nova Era em 2018.

Repórter – Em síntese é essa a história oficial do INE?

Orlando - É essa a história que eu gostaria de contar, e é importante para as pessoas entenderem todo esse contexto. Embora ainda tenha sido oficializado, mas o patrono do Instituto Nova Era será o Ailton Krenak. Porque hoje o Krenak é a liderança indígena, junto do cacique Raoni, de maior relevância. Eles são de gerações diferentes, o cacique Raoni já está com mais de 80 anos e o Krenak tem mais de 60 anos.

Repórter– O Instituto Raoni nasceu defendendo temas importantes como a Educação, Meio Ambiente e a Cultura. Qual foi sua contribuição na construção desses eixos temáticos?

Orlando - Fiz o estatuto, a ata da primeira reunião da ACEITO, mas não tive nenhum cargo, só fui assumir um cargo porque foi cogitado o fechamento do instituto. Então para não fechar eu assumi a tesouraria até que as questões burocráticas e internas fossem resolvidas. Valeu o esforço. Conseguimos preservar oito anos de história.

Repórter – Qual é o objetivo dos idealizadores do instituto e quais foram os rumos traçados para ele?

Orlando - Em síntese é o resgate das ancestralidades e da cultura brasileira, que é a cultura brasileira originária.

Repórter – Gostaria de retroceder um pouco no tempo, mais precisamente em 2012, quando começa o trabalho do Instituto Raoni Vilas Boas. Como era o cenário político e ambiental do país?

Orlando - O cenário ambiental nunca foi muito agradável. O cenário político era mais favorável não tanto para os índios, mas havia avanços na questão de demarcação das terras indígenas. Mas política indígena você não tinha, não teve grandes avanços, mas você tinha uma acessibilidade maior.

Repórter – Como você vem acompanhando a questão ambiental da Amazônia? A explosão do desmatamento e o garimpo nas terras indígenas?

Orlando – Havia um controle maior, tinha o Ibama forte, tinha instituições que lutavam pela floresta. Embora desaparelhadas, os governos sempre, independentemente de ser partido A ou B, sempre lutaram pela preservação, depois da ditadura. Na ditadura, houve a crise da Transamazônica. O governo Bolsonaro está retomando a política da ditadura militar na questão de trato com o meio ambiente na Amazônia. O que eles fizeram, rasgaram a floresta no meio pra fazer a tal da rodovia Transamazônica, que é a floresta em número de votos. Não representa nada! E nisso havia famílias de índios, puro genocídio. Embora o governo militar estivesse fazendo essa política cruel contra várias etnias indígenas, o Parque Nacional do Xingu já estava existindo desde o governo do Jânio Quadros. As etnias que foram para o Parque Nacional do Xingu, preservadas. As que não foram, ou seja, a grande maioria, quase que foi dizimada.

Repórter – O Instituto Raoni Villas Boas manteve-se em atividade de 2012 a 2018. Na sequência vem a criação do Instituto Nova Era que tem o foco em quatro dimensões (social, econômico, cultural e ecológico), com sete programas e vários projetos espalhados pelo Brasil. Como será esse trabalho de plataforma de integração e conexão do INE?

Orlando - Nós estamos no fim dos estertores da civilização contemporânea, baseada na energia elétrica, satélites e combustíveis fósseis. Isso tudo está acabando, a questão climática é cada vez mais contundente, que está vindo uma catástrofe. Precisamos fazer uma reorganização não só ambiental, mas também social em que os dois temas tenham a mesma importância. E, por que o nosso apoio à questão indígena? Pelo fato de ser a única cultura que pode preservar o homem... Outro questionamento é como ela pode ajudar o homem a se livrar da civilização. Eu sou homem, quero me livrar da civilização, preciso ser igual a ele, tenho que pensar igual ele, tenho que agir como ele. O que é a cultura indígena, ela é a nova era, é isso.

Repórter – O Instituto tem como missão, o respeito e valores de preservar as ancestralidades? Esses princípios estão enraizados na filosofia da organização desde a sua origem?

Orlando – É anterior a criação do Instituto Raoni, em 2012. Vem do tempo do ACEITO e do IDETI. O IDETI era o Ailton Krenak, eu participei do IDETI também, fiz várias viagens com o Krenak, com os xavantes; fui para o Mato Grosso, viajei muito, mas sempre trabalhando como jornalista e como colaborador do IDETI.

Repórter – Qual futuro você vislumbra para o Instituto Nova Era nesta nova fase?

Orlando – Só para contextualizar, o ACEITO foi o embrião, o Instituto Raoni o bebezinho, agora a criança começou a andar, os primeiros passos da nova era são dados em Ribeirão Preto, essa fase que está sendo inaugurada, nem foi inaugurada oficialmente ainda. Eu sou muito amigo do Mario Mantovani, me lembro 30 anos atrás quando foi criado o SOS Mata Atlântica, era uma salinha com o Mantovani e mais um ou dois colaboradores, e a única coisa que se fazia era denunciar o desmatamento. Naquela época, eu já preconizava “nós temos que plantar”, e hoje o SOS Mata Atlântica é o maior reflorestador do Brasil, mantém viveiros espalhados no Brasil inteiro e quando a organização começou nem tinha essa pretensão. Assim, é um instituto gigantesco, que recebe apoio no mundo todo, influencia congressos e governos.  O INE pode prestar um trabalho importante à sociedade brasileira e ter esse reconhecimento internacional.

Repórter – No futuro será possível minimizar os impactos ambientais com as diversas ações desenvolvidas pelo Instituto Nova Era?

Orlando - Ações que sirvam de exemplo, de modelo, para uma regeneração no meio ambiente e da sociedade humana como um todo. Como lidar com as gerações que estão aí, como as crianças.

Repórter – O Departamento de Meio Ambiente e Agriculturas Regenerativas tem essa missão?

Orlando – Sim, a recuperação de nascentes é urgente, precisamos lidar com a escassez de água; as agroflorestas são um meio de chegar a isso, é a recuperação dos nossos mananciais. Geração de alimento de qualidade, distribuição mais justa e social desses alimentos a serem produzidos, aliado a capacitação da infância e juventude para o encaminhamento para esse novo estilo de vida e de ocupação do solo.

Repórter – Você acredita no êxodo urbano?  A volta das pessoas para o campo.

Orlando – Isso já existe. Quer dizer, pessoalmente, individualmente, tanto a classe pobre, não volta porque não tem o dinheiro da passagem pra voltar para o agreste, região dos estados do Nordeste brasileiro. Tem uma turma de nordestinos que trabalha comigo em construção civil que está conseguindo amealhar recurso pra voltar para o sertão, enfrentar a seca e sair fora disso. A classe média está comprando essa ocupação de periferia, esse sonho da área verde, do ar puro, isso existe, é um sonho de consumo que já se vende. Então as pessoas já estão percebendo o valor dessa qualidade de vida que a natureza oferece. O consumo de alimentos orgânicos cresce de uma forma assustadora que a produção não dá conta de atender a demanda. Quando eu comecei a lidar com agricultura orgânica, há 40 anos, era coisa de maluco, coisa de hippie.

Repórter – Sobre o momento atual, qual a lição dessa pandemia e do vírus da Covid-19 para a humanidade?

Orlando – A primeira lição foi a resposta da natureza nos primeiros momentos do isolamento social. Os grandes navios, as frotas de carros e de aviões ficaram parados. Os ares e oceanos se limparam, a camada de ozônio se recuperou, peixes, mamíferos e aves ganharam espaços... Esse foi o lado positivo: se pararmos a máquina, o planeta sobrevive.

E a segunda lição veio num segundo momento: enquanto a humanidade tenta se proteger do vírus, representantes de governos violam e saqueiam a natureza, matando suas árvores, suas ervas, seus animais, suas nascentes, seus rios e seus povos originários, em nome do expansionismo civilizatório, mostrando a todos nós que não aprendemos a parar a máquina, ainda.