O nome Baquemirim vem da junção de duas palavras: Baque, que é um termo tradicional utilizado no Acre para designar ritmo musical, e Mirim, que em Tupi significa criança.  Surgiu em 2007 idealizado pelo músico e pesquisador Alexandre Anselmo, com o objetivo de contribuir para salvaguardar a cultura de identidade musical do Estado do Acre e da Amazônia Ocidental, como direito hereditário às próximas gerações. Em 12 anos de atuação realizou projetos financiados pela Unesco, Fundo Nacional de Cultura, BASA, SESC, editais municipais e estaduais trabalhando a valorização de culturas populares tradicionais e suas memórias para continuidade da existência dos seus saberes e fazeres.

Sua missão consiste em unir gerações e dar seguimento a uma identidade cultural até então, reprimida e desvalorizada, salvaguardando mestres fazedores desta cultura imaterial acreana e da Amazônia Ocidental. O público alvo são os mestres tradicionais, que através das ações de oficinas culturais, pesquisas, apresentações, inserções nos circuitos culturais de mídia e circulação, atuações na academia e instituições de educação, cultura e turismo, vem ganhando visibilidade, dando acesso ao público mais jovem a revisitar suas raízes e imergir em sua cultura tradicional afim de valorizá-la.

A identidade cultural acreana foi discriminada desde os primeiros contatos com os povos nativos. O trabalho do Baquemirim é concentrado na história da musicalidade da Amazônia Ocidental, dividida nos seguintes recortes:

  • Música milenar indígena;
  • Música milenar indígena (desde final do século XIX, no 1º ciclo da borracha) unida as diversas tradições vindas com os seringueiros do Nordeste;
  • Música nordestina da década de 1940 (2º ciclo da borracha);
  • Música contemporânea da floresta: a partir da década de 2000, com a apropriação de instrumentos universais como o violão pelos povos indígenas e músicas cantadas nas línguas nativas pelos Txanás (músicos da espiritualidade indígena), surgiram os festivais nas aldeias. Nestes encontros os povos praticam suas curas e rezos com medicinas tradicionais, brincadeiras, músicas etc, o que abriu caminhos para estas culturas ancestrais circularem mundo afora, neste movimento que se expandiu globalmente.

Anteriormente aos trabalhos desenvolvidos pelo Baquemirim (2007), Universidade, mídia e sociedade não reconheciam esta produção como identidade acreana devido ao provincianismo implantado pelo colonialismo. Atualmente, o trabalho tem um histórico de contribuição para mestrados na UFAC, UNICAMP, secretarias de cultura municipais, estadual, IPHAN e outros institutos de pesquisa.

As matrizes desta música são as mesmas que deram base as cumbias selváticas peruanas, que na década de 1960 alcançaram projeção global na indústria fonográfica através do grupo Juaneco y su Combo, ao Santo Daime em Rio Branco desde a década de 1930 e os recortes históricos já citados.

Nesta linguagem, no Acre os seringueiros batizaram 2 ritmos: samba e marcha, ambos da matriz Pano e Aruak, que no Peru são conhecidos como cumbias. Uniram-se a esta matriz os rítmos do Norte e Nordeste: xote, valsa, coco, lundu, retumbão, cana verde, xerém, desfeiteira, folguedos como Marujada, Pastoris, Boi Bumbá, através de instrumentos como sanfonas, pífanos, violão, cavaquinho, bandolim, rabeca, pandeiro e instrumentos endêmicos como espanta cão, pandeiros de apuí, maracas peruanas e outros.

Eixos do Programa

  • Salvaguarda;
  • Selo Fonográfico Baquemirim;
  • Educação Patrimonial.

Salvaguarda

Projeto Plantado Raízes: Resgate Cultural e Segurança Alimentar do Povo Noke Koi da TI do Rio Gregório.

Alexandre Anselmo começou a trabalhar com a música do Povo Noke Koi em 2006, acompanhando pajelanças e desenvolvendo trabalhos junto ao Coral Falamundo na Galeria Olido, São Paulo, junto com o músico Luis Kinugawa, fundador do África Viva.

Após algumas visitas entre 2016 e 2018 à algumas aldeias, recebeu o convite para ministrar aulas de música.

Em 2019, o INE possibilitou a continuidade dos trabalhos com este Povo através de uma turnê com um grupo de 2 jovens músicos, Ako e Mepe acompanhados pelo Pajé Metxo e a compositora seringueira Zena Parteira, na Espanha na 3ª Conferência Internacional da Ayahuasca, que fomentou um trabalho artístico musical onde foram aprofundadas pesquisas, estudos musicais e prática de conjunto e repertório na valorização da música milenar em integração a contemporaneidade.

Nessa viajem a comissão do INE iniciou a parceria com o Baquemirim, dando continuidade a um Projeto de grande impacto na preservação e valorização dos povos indígenas.

O povo Noke Koi faz parte do tronco linguístico Pano, circulavam pela região do alto Juruá até a década de 1970 quando tiveram suas terras demarcadas no Município de Tarauacá, Acre. Décadas antes, foram explorados pelos seringais como mão de obra escrava para a produção de borracha, abastecimento de carne de caça, entre outros muitos abusos e explorações.

Noke Koi significa “pessoa verdadeira” e são chamados pelos não indíos (Nawa) e outros povos de Katukinas, que significa “mosquito katuki, que viaja em nuvens cuja picada causa uma doença chamada leximaniose.

Na década de 1990, outros povos do mesmo tronco se libertaram de missionários religiosos e tiveram suas terras demarcadas, e os Katukinas se tornaram e ainda são a grande referência cultural, pelo motivo de conseguirem evitar o contato, sendo um dos povos que mais preservaram língua, música e diversos aspectos culturais.

Na década de 1970 suas terras foram cortadas pela construção do trecho Tarauacá- Cruzeiro do Sul na BR 364, o que provocou o êxodo e dependência de políticas públicas, assim como o alcoolismo, evangelhismo e conflitos por discriminação.

Em 2015 um grupo liderado pelo Pajé Kostí decidiu migrar para uma área mais isolada da TI localizada nos rios Gregório e Apiurí, com o objetivo de reconstruir ocupações ancestrais onde viveram os grandes pajés do passado e desde então enfrentam problemas de segurança alimentar e sanitários e a fragmentação de suas culturas ancestrais (perda da tradição da flauta Kora Rewe, da cestaria, cerâmica, plantas medicinais, culturas agrícolas etc) .

Em 2017, durante uma visita ao Pajé Koka Kostí, ele manifestou a preocupação com esses problemas, dando a direção para a implantação de futuros projetos. Assim que foi firmada a parceria INE/Baquemirim. Em agosto de 2019 foi iniciado Projeto com 3 frentes de trabalho:

  • Segurança alimentar através da implantação de Sistemas Agroflorestais com a parceria do Agente Agroflorestal Paká Katuquina, em formação pela Comissão Pró- Índio do Acre (instituição parceira);
  • Regularização da Associação afim de ampliara rede de parcerias e projetos;
  • Continuidade das ações de pesquisa e fortalecimento cultural através de trocas de saberes com os mestres Rirá (música, medicinas e flauta Kora rewe); Mupá e Taiô (cerâmica, cestaria, esteiras, redes, arte com miçangas etc) nas 6 aldeias Katuquinas da TI do Rio Gregório.

Em relação a frente de segurança alimentar, observamos durante a visita-diagnótico realizada pela equipe do Baquemirim (Patricia Helena, Terry Aquino e Evair Silva) em Agosto de 2019 que algumas aldeias Katuquinas da TI do Rio Gregório vem sofrendo com a escassez de alimentos, devido aos jovens não se interessarem mais pela agricultura, ficando concentrado nas mãos de algumas matriarcas a tarefa de plantar e alimentar seus familiares. Muitas plantas de cura e alimentícias não são mais utilizadas devido a falta de conhecimento da nova geração, que não são estimulados a resgatarem estas tradições, tais como o plantio de milho massa, espécie de milho criolo muito conhecido entre os povos indígenas e que ainda se encontra em domínio de alguns povos. 

Boi Carion

Tradição iniciada no Acre na década de 1930 no Município de Mâncio Lima, o mesmo folguedo já foi realizado por diversos grupos, mas hoje somente o Boi Carion, com cerca de 40 integrantes, liderado pelo mestre Sebastião Moura está em atividade, após um longo período sem apoio das instituições locais, que quase desapareceu.

É um reisado de natal, que teve apoio do INE/Baquemirim em 2019 para apresentação que ocorreu na comunidade rural, com público aproximado de 600 pessoas e a gravação de documentário com dezenas de mestres desta tradição única, que apresenta repertório secular com influências da música indígena local.

Oficina Escola de Sanfona Sabiá – Mestre Pedro Sabiá

Mestre das sanfonas e multi-instrumentista, compositor, companheiro de Chico Mendes, é uma referência nacional na engenharia da família dos acordeons, gaitas, harmônicas e concertinas.

O projeto fomentado pelo INE está realizando apoio de gestão para a oficina do mestre Sabiá, que já atende músicos de todo Estado para a formação de aprendizes e realização de encontros de sanfoneiros em sua residência, que já funciona como espaço de encontro cultural entre os músicos tradicionais.

Banda Uirapurú (Mestre Bima, Dona Carmem e seus filhos e neta)

Mestre Bima é o solista de violão mais antigo do Acre, com 2 CDs (Baques do Acre) gravados pelo Selo Baquemirim em 2012 e 2016. Faz parte da banda UIRAPURU que preserva a música do 1º ciclo da borracha, ensinando repertório e instrumentos extintos reconstruídos neste processo de arqueologia musical. Foi apoiado pelo INE em 2016 em oficina e show na comunidade Céu do Mapiá, e em 2019 recebeu ajuda social e de saúde devido a diversos fatores de risco.

Dona Carmen é a viúva do Mestre Antônia Pedro, músico compositor regional que deixou seu legado musical registrado através de dos CDs gravados pelo Selo Baquemirim (O Passo da Natureza e O Baile do Seringueiro e Baques do Acre- 2012 e 2016) e que reunida com seus filhos Adalberto (violão) e Marilucia (canto) e a neta Karina (percussão) levam a frente a tradição deixada por este grande mestre da música tradicional acreana.

Música Ocidental da Amazônia - M.O.A

Grupo musical que apresenta a versão contemporânea de diversos mestres e artistas ligados ao Baquemirim em integração e troca entre os mesmos, com objetivo de projetar todo este universo num âmbito global. Realizou shows na Espanha, São Paulo, Campinas e Rio Branco levando a música de fronteira através das cumbias, música milenar e suas extensões contemporâneas.

Acervo do artista autodidata Raimundo Marques Vieira -RMV

O Apoio do INE proporcionou a ação de salvaguarda através do restauro e exposição da obra do artista visual Raimundo Marques Vieira, já falecido, que deixou um legado em pinturas, esculturas e brinquedos tradicionais.

Marujada Brig Esperança – Mestres Aldenor da Costa, Zé Soares e Chico Só

Folguedo tradicional da década de 1930 do Vale do Juruá, liderado pelo mestre Aldenor da Costa que prossegue com sua arte em Rio Branco desde os anos 1980. Está sendo apoiada através do fomento aos ensaios, produção de documentário e gravação de songbook pelo Selo Baquemirim. Além do Mestre Aldenor, serão apoiados mais 2 mestres da Marujada acreana, Mestre Zé Soares e Mestre Chico Só, para que possam dar continuidade a esta tradição nos municípios de Cruzeiro do Sul e Mâncio Lima/AC.

Grupo de Apresentação Folclórica do Acre (GAFA) – Mestra Francis Nunes e Zuleide Cordeiro (Princesa Amada)

Dona francis Nunes é uma referência para as culturas populares do Acre, cresceu em Cruzeiro do Sul aonde aprendeu sobre as diversas culturas (boi, marujada, vassourinha, reizado, e contações de estórias dos povos ancestrais dentre outras). Zuleide Cordeiro também cresceu em cruzeiro do Sul e junto a Dona Francis leva estas culturas a frente através deste grupo formado na Capital Rio Branco. Este grupo será apoiado em sua reestruturação (ensaios dos espetáculos folclóricos, criação e confecção de figurinos e adereços, etc); salvaguarda de acervo (organização e documentação dos acervos – peças teatrais, músicas e espetáculos) e atividades artísticas do Grupo GAFA que são voltados para crianças e para terceira idade.

Projeto Arte de Ser – Mestra Zenaide Parteira

Mestra Zenaide é uma parteira tradicional que já realizou cerca de 300 partos naturais, além disso, é cantora e compositora que traz na bagagem a herança cultural vivenciada nos seringais do alto Juruá em Cruzeiro do Sul. Este apoio do INE vem fomentar as atividades da Mestra Zenaide Parteira para mulheres em situação de vulnerabilidade social acolhidas pelo projeto de arte terapia e saúde mental ‘Arte de Ser’ (pessoas com transtornos mentais e que sofreram algum tipo de violência doméstica e outras, que vem sendo acompanhadas por este projeto revolucionário para Rio Branco, baseado na metodologia da Nise da Silveira).

Jabuti Bumbá

 Este Folguedo de Cultura Popular surgiu de uma importante Família de artistas pioneiros na cidade de Rio Branco (atores e atrizes, artesãos, repentistas e artistas populares filhos da matriarca Deusa farias, já falecida) que seguiu vivenciando com suas músicas autorais a cultura popular, resgatando saberes advindos da cultura tradicional seringueira, de mitos e lendas da floresta, uma chamada para a valorização da floresta Amazônica. O Mestre Zé do Coco a sua família segue levando adiante esta tradição folclórica, formando jovens artistas na periferia da cidade. O apoio do INE a esse grupo diz respeito a promoção de oficinas com jovens da comunidade carente Mocinha Magalhães, que vem sendo trabalhada há 20 anos pelo grupo Jabuti Bumbá, sem apoio de qualquer natureza; dinamização dos ensaios (auto de natal do Jabuti Bumbá, folguedo Jabuti Bumbá, espetáculo repentes e cordéis, teatro de bonecos, entre outros) e  criação de novos espetáculos artísticos para venda, a fim de gerar renda e trabalhar a musicalidade do grupo com objetivo de adquirir maior profissionalismo e conquistar outros públicos pelo Brasil e pelo Mundo.

Roda de Choro do Cacimbão – Mestre Toinho do violão

 O Mestre Toinho é um músico violonista especialista em Choro, parceiro de João do Bandolim e Da Costa (músicos acreanos falecidos que deixaram legado), fundador e organizador da roda de choro. O apoio do INE permitirá fomentar a tradicional roda de choro do Cacimbão com participação de músicos e convidados, além de promover a prática de leitura e salvaguarda dos choros clássicos do repertório do saudoso Mestre João do Bandolim, patrono da roda e do sambista acreano Da Costa.

Selo Fonográfico Baquemirim

O Baquemirim possui uma discografia publicada de forma independente desde 2010. Álbuns de mestres como Antônio Pedro, Pedro Sabiá, Seu Bima e música indígena como Shaneihu Yawanawá, Coleção Documentos Sonoros Indígenas, entre outros álbuns que ainda estão em processo de finalização.

O INE apoia a estruturação e habilitação de editora para produzir e distribuir a produção musical do Baquemirim atendendo a demanda de música com qualidade técnica fonográfica para circular nas mídias, consolidando uma cadeia sustentável através do streaming (venda digital de música) e projetando estes grupos para a circulação de conteúdos fonográficos, de audiovisual e acadêmicos. Também apoia a criação do ESTÚDIO TUTAK, um espaço com equipamentos e acústicas controladas para a realização dos ensaios e gravações da produção dos artistas que trabalham com o Baquemirim. O projeto do ESTÚDIO TUTAK segue conceitos de sustentabilidade e regionalidade, e contribui na formação da área da engenharia de áudio, reunindo profissionais de referência e jovens aprendizes.

Educação Patrimonial

O Baquemirim atua na formação e fortalecimento da educação patrimonial acreana, através das oficinas realizadas com os diversos mestres, seus saberes e fazeres, transmitindo seus conhecimentos para as novas gerações de aprendizes, como recurso para a compreensão sócio-histórica das referências culturais em todas as suas manifestações, a fim de colaborar para sua manutenção.

Contribuições para uma NOVA ERA

Assim como é urgente a proteção dos biomas naturais, nas ciências humanas dependemos da salvaguarda dos conhecimentos milenares que devido aos processos sócio políticos contemporâneos, estão ameaçados a um desaparecimento definitivo.

Se o comportamento do ser humano que é um ser cultural está destruindo o planeta, é preciso uma reprogramação cultural no sentido de reaprendizado a partir dos conhecimentos provindos de uma relação harmoniosa com a natureza, que estão preservados pelos mestres e suas comunidades tradicionais.

O Acre possui um potencial cultural em expansão global que necessita de incentivos para seu melhor retorno para as comunidades locais contribuindo na melhora social, ao mesmo tempo que contribui na qualidade técnica destes trabalhos artísticos que estão sensibilizando e transformando conceitos em relação a Amazônia e ao meio ambiente global.

Equipe Baquemirim

  • Alexandre Anselmo: coordenação geral;
  • Patricia Helena: gerente geral (projetos e outros);
  • Raquel Lima: gerente administrativa e financeira;
  • Evair Silva: auxiliar de logística.