Lucas Kastrup Rehen

Projeto de pós-doutorado desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da UFRJ sob a supervisão do professor Dr. Luiz Fernando Dias Duarte.

 

O objetivo do projeto é produzir uma análise antropológica sobre a transmissão de saberes (musicais, religiosos e outros) em São Vicente Ferrer, município da baixada maranhense, terra natal de Raimundo Irineu Serra (Mestre Irineu), fundador do Santo Daime. O objetivo principal da pesquisa é valorizar, destacar e apresentar um pouco da imensa riqueza cultural presente naquela localidade, através de tradições musicais e devocionais que possivelmente influenciaram a história de vida de Irineu Serra, tal como o tradicional Baile de São Gonçalo da baixada maranhense. Este projeto também almeja contribuir para a discussão antropológica sobre religiões brasileiras na atualidade, sob a ótica das relações inter-religiosas e da problematização das noções de “sincretismo” e “hibridismo” religioso. Em termos teóricos, a pesquisa tem como objetivo estimular a combinação de diferentes campos da antropologia, como por exemplo, a antropologia da religião e a antropologia da música, na finalidade de enriquecer a discussão e seus resultados.

A baixada maranhense é berço de diferentes manifestações musicais e espirituais. A música tradicional permeia todas as relações sociais e faz parte do modo de vida de sua população.

Contudo, além da pesquisa antropológica sobre a memória cultural daquela localidade, a pesquisa também prevê uma articulação em diálogo com as comunidades locais, aprofundando o conhecimento da realidade em que vivem no intuito de trabalhar em prol do fortalecimento comunitário (valorização da identidade, interação com outras comunidades, diálogo com autoridades, etc.)

São Vicente Ferrer vive hoje dinâmicas contraditórias comuns a muitos lugares do interior do Brasil. Ao mesmo tempo em que suas práticas e conhecimentos tradicionais, que constituem a própria identidade local, são transmitidos através da oralidade, a população não tem acesso aos serviços de garantias de direitos e de promoção do desenvolvimento humano. São Vicente Ferrer/MA apresenta um dos maiores índices de analfabetismo do Brasil, segundo o IBGE, acesso precário a escolas, serviços de saúde, abastecimento de água e energia, saneamento básico e condições mínimas de trabalho e geração de renda.

As comunidades de São Jerônimo e Bom Jardim, onde nasceu e viveu Raimundo Irineu Serra são exemplos claros dessa contradição e apresentam um forte potencial enquanto núcleo de preservação e revitalização de conhecimentos ancestrais e de promoção de bem-estar coletivo através da celebração da memória viva do Mestre Irineu.

Ao mesmo tempo em que sofrem com o abandono por parte do poder público e os impactos negativos do “progresso”, possuem ainda elementos fortes em termos de vivência comunitária, relação com a terra e utilização de recursos que, se apoiadas (e em diálogo) com técnicas de agroecologia, bioconstrução, fitoterapia e turismo consciente podem ter um impacto realmente positivo na vida da população local e das redondezas.

Mestre Irineu, fundador da doutrina do Santo Daime, venerado por milhares de pessoas em diversas partes do mundo, é ainda hoje bastante desconhecido em sua terra natal. Já a influência das tradições culturais da baixada maranhense no desenvolvimento da linha espiritual que ele fundou no Acre também consiste em tema de pesquisa, até então, praticamente inexplorado. Os resultados deste estudo e seus desdobramentos, em diálogo com as comunidades locais, poderão render publicações de artigos, livros e o desenvolvimento de outras ações práticas, como por exemplo, a construção de uma “Casa de Memória Viva” e o fortalecimento de trabalho agrícola comunitário, na finalidade de promover o resgate da memória do Mestre Irineu e a melhoria das condições de vida daquela população. Através dessas perspectivas o projeto integra-se à proposta do Instituto Nova Era.

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